Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Boa noite, Luísa

Antes de mais, desejo-lhe sinceramente um óptimo ano de 2008!
Nem sei bem o que escrever, as ideias assaltam-me em catadupa. Comprei o livro “O segredo”, porque há momentos na vida em que nos queremos agarrar a qualquer coisa que nos dê alento. O que lhe vou relatar é, provavelmente, mais do mesmo. O meu nome é Margarida. Tenho 40 anos. Antes de mais gostaria que não me respondesse por e-mail, mas sim no seu blog, se assim o entender. Olho para mim e não vejo nada. Vazio! É triste, mas é o que sinto! Será que o facto de ter 40 anos tem alguma influência? São fases… dirá! Mas vou ordenar ideias e prepare-se, se tiver paciência, porque o desabafo é longo (desculpe!).
Em criança fui vítima de sucessivos assédios sexuais, até por parte de familiares chegados. Como sobrevivi? Nem eu sei. Mas quando temos 10 anos, há algo que nos protege. Depois fui vítima de violência doméstica por parte da minha mãe (mulher completamente desequilibrada emocionalmente e que fez infelizes todos à sua volta). Devo dizer que a violência não era física, mas penso eu, a pior de todas: a psicológica! Sempre me agarrei aos estudos, como escape. Era o meu único refúgio. Isso e a comida. Até aos 18 anos, apesar de viver em Lisboa, nunca tive namorado, nunca fui a uma discoteca, nunca saí com amigos para o cinema: nunca me deixaram saborear a vida. Aos 18 anos fui estudar para outro pais, bem longínquo! Queria distância de tudo! Da minha família, dos problemas! Fuga. Penso hoje que não enfrentei a situação com coragem. Apenas fui sobrevivendo de forma a não causar mais problemas em casa. É engraçado como as nossas atitudes do passado podem moldar a nossa personalidade actual. E à medida que os anos passam, essa falta de coragem toma proporções avassaladoras. Resumindo um pouco e descrevendo-me: sou carente. E a minha carência levou-me a uma série de fracassos sentimentais. Agarrei-me sempre às pessoas erradas. Por medo de não “ter” ninguém. Tirei o meu curso superior lá nesse país longínquo, com um clima, tradições, alimentação, língua bem diferentes de tudo o que conhecia. Mas consegui, apesar das dificuldades financeiras. Guerreira, diz-me o meu irmão! Não sinto isso! Acabei o curso e durante dois anos dei com portas fechadas cá em Portugal. Trabalhei em restaurantes, e noutros serviços porque fui literalmente posta fora de casa dos meus pais e porque, verdade seja dita, me fui acomodando. Mas isso foi bom. Acabei por conhecer gente boa que me ajudou. Há sempre gente boa que nos ajuda! Optei mais tarde pelo ensino. Há 13 anos que sou professora. Aceitei o desafio. Tenho um emprego estável, mas não me seduz mais. Conheci um rapaz quando comecei a trabalhar no ensino. Estava tão desesperada por ter um lar, que não olhei para outros detalhes. Casámos passado um ano e vivi com ele durante dez anos. Mas cedo percebi que algo não estava bem. Mas tantas vezes calamos a nossa voz interior… eu, pelo menos! Percebi que era uma pessoa sem objectivos. Não tivemos filhos. Cedo deixei de os querer com ele, devido às diferenças de educação. Não tinha emprego permanente, não conseguia ter um plano de vida em conjunto comigo. Comecei a trabalhar a dobrar para fazer face às despesas. A todas: até o tabaco e os cafés que ele bebia. Ao longo dos anos tentei dar-lhe objectivos de vida, mas desgastei-me porque para ele era mais cómodo viver sem preocupações. Nem conta bancária quis ter. Assim, todas as despesas, prestações, etc. estão em meu nome e ainda não acabei de as pagar. Saí de casa em Agosto passado, depois de pelo menos um ano de tentativas. Ele conseguia fazer-me ter pena dele. Um dia uma pessoa muito minha amiga, que agora está no hospital com uma trombose, me deu um ultimato: Ou sais agora, ou nunca mais consegues! E eu saí! Fugi! Não me arrependo! Entretanto, conheci uma pessoa na Internet. A nossa paixão foi muito fulminante. Conheci-o em Janeiro do ano passado. No entanto, só em Abril é que começámos a namorar. Mas eu vivo numa ilha e ele no continente. Não tive logo coragem de sair de casa e em Julho já ele me acusava de não ter feito nada e de o fazer sentir um amante. Desde essa altura as coisas andam apenas na base de uma amizade íntima. Ele mesmo tem muitas coisas para resolver, mas tem uma personalidade fortíssima e pés muito bem assentes na terra. Já se casou diversas vezes e separou-se. Gosto muito dele e ele de mim, mas… já se perdeu muito do que havia e eu, com as minhas inseguranças e falta de auto-estima, só vou fazendo pior. Sinto que sou subserviente e não me mantenho erguida. Se calhar não é possível gerir tanta coisa ao mesmo tempo. Há dois anos atrás pesava 140 kg e isso também me afectava imenso. Coloquei a banda gástrica e neste momento peso menos 60 kg. Uma victória. Mas não sabe bem quando não é partilhada… Nem apoio familiar tenho, porque os meus pais não concordam com este relacionamento. A minha mãe já me tratou de p… E eu deixei de falar com toda a família, que só consegue fazer-me sentir mais mal do que bem.
Desculpe Luísa por este chorrilho de desabafos. Quero voltar a ser eu, mas sinto-me só. É obvio que mais vale só que mal acompanhada. Mas sem filhos, com uma pessoa que não nos ama como gostaríamos de ser amadas… sem apoio familiar, sem o apoio da minha melhor amiga que está no hospital, bom… está a ser muito complicado! Muito mesmo!! Neste momento choro!
Eu sei que há casos muito mais desesperantes e complicados. O meu maior problema é a minha falta de confiança! Falta de força interior, falta de carinho e de tudo o que mais me posso lembrar. E por isso aqui estou. Tenho sonhos: voltar a estudar. Mas devido ao facto de não me darem o divórcio e ser eu a pagar ainda todas as prestações, continuo a trabalhar por dois. Do meu ordenado sobra muito pouco para mim.
Passei por outras fases bem complicadas na vida e consegui levantar-me. Mas desta vez está a ser difícil. Muito complicado e por isso estou aqui neste desabafo que mais parece que eu tenho pena de mim mesma! E se calhar tenho! Mas não devo. Devo continuar a lutar, mas faltam-me as forças! Para trabalhar, para ser…
Já fiz muito para melhorar: psicólogos, li livros, procurei na Net. Tudo receitas. Não passa disso. Gostava de ter a sua força, a sua confiança! Mas não tenho!
Desculpe-me pelo tempo que lhe “roubei”.
Margarida

 Ah! Como é extraordinario que nos conheçamos tão pouco a nós mesmos!
Depois de ler o seu texto só me vem à cabeça a afirmação do seu irmão "GUERREIRA". É exactamente isso que a Margarida é!
Sobreviveu a uma infância traumática sem se encostar a um canto a chorar, ou a chutar-se na veia, foi estudar para o estrangeiro com dificuldades e ainda diz que fugiu(!), aceitou trabalhos muito inferiores às suas habilitações e não se deixou destruir, vai para professora, faz um mau casamento e consegue bater com a porta, perde 60 quilos continua em frente, apaixona-se e vive o momento a seguir, a realidade.
Se isto não é ser uma Guerreira, então o que é?
Vou dizer-lhe muito provavelmente a ultima coisa que queria ouvir neste momento: Não tenho a minima duvida de que saira vitoriosa desta batalha e de todas as outras que a vida lhe apresentar!
Quem provou as dores mais amargas e mais crueis, e continua em frente, é porque sempre o fará.
Eu sei que não a estou a ajudar. E vou mesmo piorar a coisa. É que sabe, ninguém nos perguntou se nós queriamos ser assim, e com o tempo, todos acham que temos obrigação de ser capazes de aguentar tudo.
Margarida, um dia dirá: Eu escorreguei. Eu cai. Eu voei.
Porque esta é a sintese da sua vida e a de algumas de nós.
Foi um orgulho ler as suas palavras e receber o seu exemplo.
Volte sempre.
publicado por Luísa Castel-Branco às 14:45
link do post | comentar | favorito
2 comentários:
De Margarida a 20 de Janeiro de 2008 às 23:39
Boa noite Luísa!
Só posso dizer com toda a sinseridade e do fundo do coração: obrigada pelas suas palavras e bem haja pela força que me deu! Sou guerreira sim! E tem dias que sinto: quem não me conseguir ver da forma como sou e o seu humeno que sou, então pior para essa pessoa, porque deixou de conhecer um ser humano com H! Obrigada Luísa! Sou uma guerreira sim e nunca deixarei de o ser! Escorrego, de vez em quando, caio, de vez em quando, mas sempre me levanto, limpo as lágrimas, saro as feridas e vou! Vou para onde a vida me levar! Um beijinho enorme Luísa!


De Maria do Carmo a 29 de Janeiro de 2009 às 15:18
Vi este comentário e simplesmente fiquei estarrecida. Conheci uma pessoa ha 4 anos. Divorciado. 3 filhos. Pensava eu ter encontrado o equilbrio que sempre me faltou.pois sempre dei mais do que recebi. Também eu divorciada e com um filho, só queria um ombro amigo, carinho e sinceridade. Faltou o mais importante. Sinceridade. A Ex que nunca deixou de estar presente, o descobrir as traições de 4 anos. o sentir esse tempor como perdido....
E depois vejo o comentário da Margarida e penso, afinal o meu, não é o pior caso do mundo.
Bem haja e mta coragem


Comentar post


Vox pop - E viva Campo de Ourique e as histórias felizes!

Fui lá armada em esperta. A intenção era saberm se aquelas mulheres que ali trabalhavam no Mercado de Campo de Ourique tinham sequer sabido da comemoração do Dia Internacional da Mulher.

E não é que todas, apenas uma excepção, tinham recebido presentes, eram casadas há mais anos do que imaginamos que ainda existam casamentos em Lisboa ?!

Toma lá Luísa para aprenderes!

posts recentes

Pois é, vem ai o Natal!

raquel disse sobre A dor ...

Ana Paula disse sobre Des...

Importa-se de repetir????...

Paula disse sobre Virgem ...

Sara disse sobre Virgem a...

Maria disse sobre Diário ...

Alexandra disse sobre DES...

sara disse sobre Negas a...

? disse sobre Diário de u...

Obrigada Maria

Negas ao sexo? Cuidado av...

Sobreviver a 2009

coisas q eu quero mudar e...

Sofia Diniz disse sobre A...

tags

todas as tags

arquivos

Dezembro 2011

Fevereiro 2010

Novembro 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

pesquisar

 
blogs SAPO

subscrever feeds