Sábado, 12 de Janeiro de 2008

Desafio nº10 – O elogio da preguiça

 
Estamos nas primeiras semanas do ano, e já deitamos os bofes pela boca, perdoem-me a expressão.
Daí que me tenho vindo esta ideia.
Ora, comecemos pelo princípio.
Estamos habituadas ao ritmo alucinante da nossa vida, certo?
Andamos a correr de um lado para o outro, tentando apanhar todas as bolas ao mesmo tempo.
E consideramos, porque a tal somos obrigadas, perfeitamente natural ser Mãe, Amante, Dona de Casa, Profissional, Filha, etc. e tal.
Ponde de parte todas as nossas frustrações relativas a qualquer uma destas áreas, a verdade pura e simples é que não temos tempo para nada.
 
Não sei se é uma condicionante genética, ou resultado da nossa educação e moral, olhamos para o ócio como um crime, um pecado.
 
Mas na verdade, o que deveríamos fazer, era exigir a toda a gente, que respeitasse os nossos momentos de silêncio, de solidão, os momentos despendidos num hobby, ou fosse o que fosse.
 
Se habituarmos os seres que nos rodeiam, nomeadamente a nossa família, a que, uma vez por dia, uma vez por semana e em ultimo caso, uma vez por mês vamos tirar umas horitas para nós e não queremos ser incomodadas a não ser que algum dos meninos tenha partido a cabeça, talvez, não digo de imediato, mas a médio prazo a coisa resulte.
 
Recordo-me de quando vivia sozinha com os meus filhos, ter por princípio abrir a porta da casa a todos os amigos deles. O que quer dizer que aquilo mais parecia um albergue do que uma casa particular.
Mas resultou porque desta forma eu sabia quem eram os amigos, e dava-lhes um local onde estarem.
 
Claro que a coisa era mais fácil porque não tendo homem em casa, não havia hipóteses de interferências.
 
Um dia Sábado cheguei a casa esgotada pelo trabalho e deparei-me com a loucura total.
Na cozinha, os pratos amontoavam-se de tal forma, que um simples espirro partiria a louça toda.
Havia embalagens de pizas por todo o lado, roupa espalhada pelo chão, garrafas de Coca-Cola vazias.
 
Os meus três queridos estavam calmamente a ver televisão, no meio do chavascal, com o ar mais impávido do mundo.
 
Recordo perfeitamente que meti a chave à porta, dei uma volta pela casa, dirigi-me ao meu quarto, sempre em silêncio.
Eles já sabiam que o meu silêncio nunca trazia nada de bom, e um a um vieram ter comigo a meter conversa.
 
E eu, nada!
 
Em poucos minutos, fiz uma mala com o mínimo possível, fechei-a e dirigi-me para a porta.
 
Ainda estou a vê-los, os três adolescentes estacados e boquiabertos.
 
Abri a porta da rua e disse-lhes que me recusava pura e simplesmente a chegar a casa e encontrar aquele nojo!
 
Nessa noite fui dormir a um hotel. Dormi pouco diga-se a verdade, não porque eles não tivessem já idade para passarem uma noite sozinhos, mas porque a mim me doía o coração por me ter zangado.
 
No outro dia, Domingo, cheguei a casa e tudo brilhava!
Bem, a coisa não me saiu barata porque os meninos resolveram lavar o chão de madeira com lixivia e lá se foi ao ar o tratamento, mas o que realmente importava era terem percebido a mensagem.
 
Gostava de vos dizer que nunca mais encontrei a casa desarrumada. Mas seria mentira!
Contudo, daquela forma não tornou a acontecer e nunca mais falamos sobre a minha noite fora.
 
Dito isto, penso para mim mesma, que se calhar também tenho que tomar medidas como estas relativas a outras pessoas!
 
Quem sabe o resultado?
 
Todas nós temos direito à preguiça!
 
Aguardo os vossos comentários e histórias!
 
 
publicado por Luísa Castel-Branco às 11:06
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